O Caos me ama

me dê algo de verdade
já estou cansada
de toda bajulação
Não me venha com finezas.
Todo requinte léxico
e um lirismo enfadonho.
É tudo falso!

Me ponho em vísceras
e por tudo
tenho o peito doído

Esse sangue corre
não estanca em memórias
perdidas de noites mal-dormidas.

Se eu tinha medo de amar
Tua presença fez esse medo triplicar
Afinal
nada exposto
nada pronto
nada referencial
Teu caos griz me aniquila
Não me faz dançar.

Em casa

sopra novamente
e o que provoca vertigens é sentir-se só

o topo
A altura plena
e vácua.

Solidão.
Em que mão segurar?
A que olhos fitar?

O horizonte é imenso...
e é todo seu.
E todo corpo
é pequena parte.
Mas é todo seu.
E já não se está mais só.

Alice 1032

Tenho um senso de lealdade
sem ser patriota.

Falta-me endereço
registros civicos de identidade.
Mas é bem certo,
nesse plano
o que não me falta é lar.

É confortável em teus braços
Terra
Fogo
Ar.

E líquida é toda mudança.
E líquida fico
quando
sou sentimento.

Cantiga de Ninar

Tinha os dentes
Eles se foram.
Me restam as bocas
banguelas
que amaciam palavras.

Leão:
tuas infinitas bocas
(que pouco conheço o que devoram)
conversam
e me babam
e me amaciam.

Tinha os dentes
os guardo a fio.
Sangrentas são as finezas
extraordinárias
e diárias.

Ficou tua boca banguela
e me mastigas agora
com tuas garras.

O avesso de Dentro

eu me revolto
sem voltar à mim
(ou a ti)
as palavras de angústia
e espera
por coisas diferentes e melhores.

Olho os ombros.
Eles me falam se alguns corpos
sentem, simplesmente, o peso do mundo
ou se, forçosamente, tentam lhe carregar.
Outros ombros estão eretos
por pura leveza
seja qual ela for.

Não rumino paixões adormecidas.
Abro os olhos e sinto o infinito
de possibilidades
ao meu alcance.
O que faço primeiro?

Arrumo dentro, arrumo
o quarto e a sala.
Lavo as decências lamosas.
Costuro os retratos
da minha falta de paz.

Eu e minha casa
abertas para o vento
brincar dentro de nós.
Abertas para a invenção
de novos dias,
mais coloridos e melhores.

Não queira bater,
pedir licença
Estamos abertas e sem espera.

Sementes negras

Clarear as esperas
há um longo caminho até os negros salmos de dezembro
(apesar da pressa)

Uma espada vem em minha direção
e pede prudência.
Como?
se há sangue esvaindo dos sonhos que germino.

Não é meu tudo isso que chamas de
amor e espera
Compreendes agora
o que quero dizer
ao negar tua covarde dor
e encontrar no amor
apenas entrega?

Sorrateiro

submarino negro
de costas trançadas

soterrava as esperanças
cantadas na vida cega

Submarino negro
submerge as entradas
as mata afogadas

Trancei teus cabelos
rasguei as cartas
Mirar a mágoa
Sugar dela.