:: Quarta-feira, Janeiro 18, 2006 ::

Sopro

sobrevi teu canto em sutileza
estava cinza
e sopravas sem querer desiquilibrar

às vezes morno, outras morto
Acaba tudo por ser pó.

:: habitante de mim 12:17 AM
...

árvore geneológica

preserva-se tão inquieto
por mais que o espanque
por mais que o amedronte
sempre fugindo da minha dor

esses dedos tão reincarnados de genes passados
esse mal olhar das vigias noturnas
assim que pronuncio o tempo
ele se repete

voltei a andar descalça, lembrar o mar e sua beira
fiquei com meu balanço autista
cantarolei sonhos ao mundo

Falta ar para me articular
preservo-o tão inquieto
às vezes sim, outras não
sempre belo.

eu que voltei a ver
os vôos distantes...
respostas prontas
pra tudo
exceto pra mim.

:: habitante de mim 12:14 AM
...
:: Terça-feira, Janeiro 17, 2006 ::

No fim

se me prender
a esse som
tão pingado
à mercê de esperanças sangradas,
uma chuva tão gélida
virá em momentos largos

fiquei cansada
Deitei-me
e tapei os olhos do céu

tanto escorria do fim
reverso às olheiras de negra prece
estendi-me em pÊlos
fiquei suja
em àgua pura
queria me lavar
(já não podia)

Correu
para só, então, aquietar
Não precisei prever
eu era calma
Considerava a graça entristecida
Ainda sou melancólica
com uma pele que não gela

:: habitante de mim 3:03 PM
...
:: Sábado, Janeiro 14, 2006 ::

-transforme nossa conversa em poesia
-transformo

(ao rever sugerido por Vagner)


Ela fechou os olhos

precisei da tua mão
não foi tua culpa

estavas oscilando
longe de qualquer postura

e a poesia?
não soubeste dizer porquê
algo sujo aconteceu aos óculos

"as coisas são, como elas são"
ver exatamente, não faz bem aos poetas

Quem sabe a sujeira não te ajude n'outro olhar?
Tenho medo de perder o outro.
por mais que sejam dois, até mesmo três.

Olhou, e disseste rindo que a sujeira coberta
era arranhão de asfalto e limbo.

Essa mistura é um pouco forte
é normal que isso te mude.
Era sombra quando
algo no olhar rompeu sinuoso.

Deixa o olhar escuro.

Talvez dormir
ou simples não ver.
Traz p'ra perto o que não consegues ver
e toca.
"De olhos fechados tudo parece próximo"

é mentira... mas é bonito.

:: habitante de mim 2:15 AM
...
:: Segunda-feira, Janeiro 09, 2006 ::

Alguma Fotografias

- sobre a mesa

Algo digitaliza esse passar. É paz. Estavam esperantes. Já tinham luz, faltavam-lhe o negro. Permaneci muito tempo sem as tocar, apenas oculando o reflexo da luz.

Pensei o quanto seria bom possuir uma câmera, fotografar esse ar belo. Mas fotografias não captam a respiração dos objetos, tão pouco o bafo luminoso. Fotografias desfocam o não estar.

E ninguém estava. Era o café da manhã. Pus a mesa para dois. Um chá de camomila acalmou-se esfriando em espera.

Bebi um café. Uma paisagem sem uma garrafa (minúscula que fosse) de vodka.

O xadrez da toalha, colocou um dos farelos em enigma. Para onde mover essas (minhas) migalhas?

'Apenas um café', consolou-me a luz. É mais um. Amanhã será um chá. Hortelã.

:: habitante de mim 9:57 AM

:: Quinta-feira, Janeiro 05, 2006 ::

The Ghosts You Draw On My Back
(Múm)

The wind plays flute
Through the cellar door
And on my window sill
Plays a sad old song
I hope tonight
You will touch my hair
And draw ghosts on my back

Walk the shore
Too impassable
Shout at screaming waves
Shout at silent rocks
I think tonight
I'll dream of salty tongues
So tears drip down my legs

The wind plays song
Through the cellar door
And on my window sill
Plays a sad old song
I hope tonight
You will touch my hair
And draw ghosts on my back


:: habitante de mim 9:54 AM

Apanhador de pássaros

Qual foi teu intuito
ao desenhar estrelas em meus pés?
O céu ficou quente
deixou tenso o andar
Tenso e inchado

formando bolhas das pontas
eu não tinha sombra

Desenhaste fantasmas em minhas costas
Como vou me livrar de ti?
e de todo resto que passou?

Procurei ajuda na noite
senti o peso dos ombros

Abstraiu tintas em minhas pernas
Sou derme-tua
das mensagens
que não ouso decifrar

:: Sexta-feira, Dezembro 23, 2005 ::

Assim que cansa

catei os pêlos
suados do entardecer.
"douraram!"
já me arrependi de ter calado

No céu-ouro
relembro aquilo
doce
ou frustrado.
Os dois não agüento.
Me retiro etílico

escrevo cartas.
Não as envio.

Penso na distância.
Não é tão longe para se andar.

:: habitante de mim 11:58 PM
...

Torto

fui lá
tirei a pele
e mostrei o que ele já via.
E do que adiantou o medo
Massagear os seios
no seu pensar doído.
Verdade que dói mais
mas está dito.
Me culpou de não saber o que quero
Melhor saber do que não quero
Não quero mais ser tua parte
nem segunda, nem última.
Serei peso (inteiro)
no amor de outrem.
Eu te amo
seja feliz e se exploda.

:: habitante de mim 11:53 PM
...
:: Sexta-feira, Dezembro 09, 2005 ::

Terceiro olho

(ele viu demais
agora vive de
limpar os olhos)
um caroço
têneu sobre-pousa
um olho
de cada vez

poupando
o que assombra de raro

no andar
já não me canso
no andar
por aqui, já é passado

outro olho
outra vez
esquerdo
piso de brincadeira
(é escorregadio)
há um fio cortado
um de dois
é meio errado.

:: Domingo, Novembro 06, 2005 ::

Na palma da mão

redoma surpresa
dos títulos mágicos do oriente
gritando por uma identidade
que é tão quieto em seu ruído
É o belo que renova
o ar que seca as árvores
o limo das pedras-musgo.

Sapatos claros em inverso
quente
Sorrisos brandos
maquiados de pele
Eu temi a Bela máscara
já que depois dela o rosto se fez
inconstante.

:: Terça-feira, Outubro 11, 2005 ::

Quando findar... desejo

I - Ainda Cedo

e se a vida se permitisse
tocar?
Eu já não estaria
Alguém faria os versos
e prepararia a casa

Fiz toda questão
de quebrar os bibelôs
Serviam apenas para o pó
Assim como as vistas postais
que me angustiam num
sorriso de me ver só

às vezes temo me tocar
com essa imagem
me fitando

e mesmo o laranja
que é só crepúsculo
acaba
me deitei nas fotografias do céu
limpei olhos e comecei
ver além
de cá dentro
o barulho de fora não é mais silêncio
é raio de sol belo
que reluz melancolia

Judiei da noite
Agora me castiga o dia
esse dia
me ensina esperar
sem tempo.
Me convida para um passeio
É primavera
e só quero a seiva doce
perfumada em teu seio.


II - Ainda Medo

aresta quieta
dessa noite mal-agrada
Me compete sussurrar aos montes
(quais nortes?)
o que não cabe.

Sendo os calos
repetição de dor.
Calmaria resta
no entediar de promessas.

Nossas mulheres
de sangue forte
já nascem mortas.
Insistem disfarçar superioridade
Putas sem dono
tão cúmplices
Mães dessa falta de palavras

originais, originadas
d'um ventre (ou mentes) ordinário.
Quais roupas vestem o frio?
e as estrelas caíram todas mortas
vermelhas
hemorrágicas do querer.

Tatuei nas minhas costelas
Sentir
no meu ombro,
compaixão embarrada,
brotou uma flor-de-lótus.

:: habitante de mim 2:25 PM

... :: Quinta-feira, Outubro 06, 2005 ::

Nuance


"é na mudança
que as coisas encontram repouso" (Heráclito)

persisti com o sagrado
reli entre-linhas
e tudo era óbvio:
as interpretações são minhas

e morreu o sonoro
- aquele de quando
eu me calava aberta
em poros sujos
para sentir o teu falar -
fiquei aqui
revendo conceitos
em busca de um antigo eu

De sonora, resta a saudade
(I don't wanna, i don't think baby)
A juventude começou agora
por isso fecho os olhos.
meses atrás despertara
e antes que, o que de bom há em mim
pudesse apodrecer
bati com a cabeça
e no corte sangrento
a sabedoria esvaeceu.
Debilada mentalmente, sonho outra vez
Em clima tenso
de jorro que se nega acordar.
Mas isso, não temo.

:: Quinta-feira, Setembro 29, 2005 ::

Sem

motivos para me aborrecer
essa cleptomania de esconder
o que não encontro

eu experimento
a estética dermatológica
do ser escrito.
Preciso me ver enquanto
realizo estranhos fetiches

como se tudo fosse...
estrangeirismo fotográfico
que queima lentamente.
(burn... burn)
toco meus lábio lentamente
e isso exige beleza
extrema por ser primeira

no rubor das faces
no rubor da cama
como se já não me coubesse
eu crivo
dentes tortos de ava
são meu sigilo.


não tenho olhos
só pele penetrada
encostada por ossos
eu penso em me querer

diga adeus aos manuscritos
tudo não passa de
concha de botão
(e isso encomoda tanto)

Sabe que às vezes prefiro isso
flores de cola seca
e brisa cinza
perfumada

Vou me alimentando
desse acre estranho
bem perto, quase estanho
agora é preciso esperar
me apaixonei por algo errado
como se já não coubesse
ainda procurei abrigo.

:: habitante de mim 5:33 PM
...

Pena

colocaria em palavras
o que não me serviria em cena
o enquadramento sonâmbulo
o querer distante
Mas o sonhar (de ilusão)
transformou-se em pena

Rica de compaixão alheia
requerida no que de severo
teu sorriso expõe

Rompeu o que conhecia do silêncio
tudo manifesta-se em balanços musicais
Só e sereno
contemplo o que se consome
sórdido em seu jamais.

:: habitante de mim 5:27 PM
...
:: Quinta-feira, Setembro 15, 2005 ::

O barulho de dentro é pior que silêncio

ouço minha voz
quase fraca
"saída das bocas miúdas
das feridas
por onde, em pus,
também (me) sai a vida"

onde, me pûs
calar teus desalentos?
nos panos negros
que comprimem mistérios
tão cegos dessa distância

lá, na minha solidão
reaprendo o sentir liberdade
Vão ser outros caminhos
(um outro lar, talvez)
A vida já está de saída
acompanho-a em seu andar

As falas desse cotidiano
melancólico
recompõem o resistir
(cansei-me de tentar o teu segredo)
Ajo desconstruindo
que se faça o encontro!

:: habitante de mim 12:51 PM
...

deixem falar por mim


Eu
(Florbela Espanca)

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névou tênue e esvaecida,
E queo destino amargo, triste e forte,
Impele brutalemente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!



(exagerado eu sei, mas fazer o que se sou reencarnação da própria)

:: habitante de mim 12:32 PM
...

Do pensar que não cabe ser dito
(ou poema feito entre parênteses)


(aquela luz que me sorri
- sem tempo
e do bloqueio
me dô
à essa teia
marrom glacê
arrastada
em panosque me vestem

pó

- é mais um silêncio
da pausa
pensar
o nada
em sua imensidão
de cor
e qual cor
é corada
coroada
de nada

um aquecimento
ao não-senso -

costura
colcha de retratos
atalhos
compromissos uniformes
- sem armadura
sem farda, uniforme -
puídos e usados
pelo vento

contento
em dançar imóvel
e foi e voltou
montou
recebeu - anfitriã
doce cortesã

mais um pensar
levado ao "isso"
sossêgo real
Um viva
à masturbação menta!)
:: habitante de mim 12:17 PM
...
:: Segunda-feira, Setembro 12, 2005 ::

mais um... pois esse é ótimo


306 PUTANHEIRO
(Glauco Mattoso)

Putana, prostituta, marafona,
rameira, pistoleira, meretriz...
Além do que o sinônimo nos diz,
existe uma perita em cada zona.

Nem tudo na mulher é mera cona:
há a bunda, o seio, a rótula, o nariz...
Cliente mais exótico, feliz,
a velha zona erógena abandona.

É o caso do podólatra, que quer
o pé dela em sua boca e no seu falo,
ou pôr seu pé na boca da mulher.

Do fetichista cego já nem falo,
pois seu desejo não é pé qualquer,
mas o que tem chulé, frieira e calo.

:: habitante de mim 11:23 AM
...

(Sejamos pés, para o chão que é Glauco)



418 SENSORIAL
(Glauco Mattoso)

Sensíveis todos somos, mais ou menos,
mas seres sensitivos, só os pequenos.

Sentir é propriedade material.
A gente sente a forma, o peso, a cor,
aromas e calores, doce ou sal.

Filósofos entendem que a verdade
não passa de ilusão. Pensamos nela
apenas como quem aspira, anela:
delírios dum recluso atrás de grade.

Sentir é perceber o que é real,
mas é também querer, seja o que for,
alguém ou algo, intenso, especial.

Se somos sensuais, quem sabe é Vênus.
Serão sentimentais somente os plenos.

:: habitante de mim 11:19 AM
...

eu choro?
Desconfio do meu cansar
é esse ser sozinho
esse estar longe daquilo
que o amor protege
e quem se importa
em ouvir?
O silêncio (sempre ele) ouve
e esquece de trazer consolo
a luz não aquece

:: habitante de mim 10:45 AM
...
hoje vou contar umas mentiras. não cabe sal de luzos, eu traguei meus soluços.


Trivial

Exposto ao sol vitral
e ao vento temporal
(de tempestade)
As folhas que
mentiam suspensas
perderam a linha

Quem será o próximo
a ser solto pelo tempo?
Poucos tantos cantos
poemas
sintaticamente locais
No ar não há lugar
Em um dia
a luz começa e finda
Exposto ao cheiro que é podre
(simplesmente restos - os sujos)
Quem será o último
a suportar o tempo?

Eu toco sentimentos passados
O futuro está morto.




(sim... estou de péssimo humor)
:: habitante de mim 10:41 AM ...
:: Segunda-feira, Setembro 05, 2005 ::

perolado

logo depois que o sol se abriu
saí à espreita
da tua sombra
O engraçado
é que tudo calou

Voltei para minha concha
portátil
Sorri antes mesmo de tu chegar
ficou maquiado
até ouvir teu "olá"

Senti o calor da tua pele
(já não era mais sombra)
e procurei aquecer meus pés
no meu andar.

:: habitante de mim 6:49 PM
...

Anestesia

corte
recorte-mundo
(dor de mar-celeste)
redescobri os mitos
e eram tantas flores
em um harmonioso concreto
Soprou camomila
(- dê-me uma cor
e me lamba em sinestesia)
contida
eu não via
só tinha as costas

:: habitante de mim 6:47 PM
:: Quinta-feira, Setembro 01, 2005 ::
Por menor

Resta uma linha para o tempo?
Felicitou-me aquela imagem
que recebia (durante a espera)
apenas
(exagero jupiteriano)
O grave diz
afinado tanto, quanto
não entendia

meus sapatos
me fizeram acreditar

Soa perto, bem perto
sem se repetir indiferente
(não me deixe,
o quanto quiser - queixe)

Por que não matar a falta
com presença?
(Usei a desculpa do frio
e me guardei como poeira)
Minah pequena não me quer
prefere a rainha
(ela acredita em escolhas
- eu não...)

Deve ser o laço
negro e pontilhado
Gostei muito.
Tive vontade de permanecer
bonita.

:: Segunda-feira, Agosto 22, 2005 ::

Do teu coito, sonharam oito

Te olhando assim
tenho o véu
mais cândido
Levanta o céu pra mim
e sorri
esquecendo o dizer

As nuvens são barras
negras sobre
teu rubor
Bastaria romper esse pouco
e voar para não-sei
quais braços
(mas há braços)
me enredar

Teu balanço
suspenso, já aqueceu
meu esquecimento
o ventre ganhou medo
e expulsou
(já não me lembro)
o que um dia
chamamos de cor


Levanta o frio pra longe de mim
Assim eu me preocupo
mais conosco
os dois

zilhões de sonhos
que guardamos na encubadora
esperando o caos voltar
Gerados nas chuvas de outubro.

Levanta meu mundo
sem fim
Preciso ver o que há
por debaixo
descançar o sono
o tal que ainda não foi achado
(ele sempre se manteve desperto)
Já há nuvens prontas
para alvorecer.

:: habitante de mim 5:44 PM

... :: Quinta-feira, Agosto 18, 2005 ::

homenagem

não devo respeito
incapaz de se gerar
natura
que me desse
teu nome (sonífera)
que me desse teus homens
madre vadia

houve um cercado
aquele lado é o teu
eu fico com a terra de pedras
para rezar vidas milagrosas
que teus cuspes me vão gerar

desse ventre amaldiçoado
em pus
o meu querer
meu nome
desses homens
noite tardia.

:: habitante de mim 7:15 PM
...
:: Segunda-feira, Agosto 15, 2005 ::

poucos acordes

Comuniquei
o tanto aos outros
que me ouviam
- todas as palavras
(como, às vezes, não parece)
erram canções

e me sorriam
eu sabia que já estava em casa
foi então que alguém partiu
sem deixar aceno

olhei pela janela
o horizonte se fez pequeno
toquei minha pele
está aqui
me pedindo cuidados
cessa (no momento) esse sonhar.

:: habitante de mim 12:34 PM
...

Saiba o qu'eu sei

ouvindo o suave despertar
dos meus vizinhos
Creio que meu sonhar
distraiu a civilização

Como cabe tanta beleza
em uma só fêmea?
(ventre de feitiços
por natureza)
Eu a suspendo
no seu cair
que é logo acima do meu
que é vontade pelo que se perdeu

Giro em ciranda
soluçando intérpretos movimentos
Meu sorriso zonzo - copiado -
recebe os nove dias
sem repetir cores
Sendo vento entre teus
poucos cabelos
Correndo pra longe
de onde anseio

Devias cantar mais vezes
e deixar-me entender
o sentida des'amor.

:: habitante de mim 12:30 PM ...

mal-me-quer

me deste as dores
do mundo
para que pesasse
em meus ombros

Não pude...
era pouco para viver
Abandonei a mentira maior
Desejei boa sorte

Engole seco
este teu orgulho!
Vou para o lugar
onde tuas mãos me colocaram
Longe da TUA dor
ofegarei livre
sem ressentir o medo
sem ressentir meu desejo
Volto, assim, que a cicatriz
te curar.

:: habitante de mim 12:26 PM

Tente estar lá

Despetaladas
as cores sangram
o céu anil
Nebulosos de tanto silêncio
angústias
a um assovio
um olhar de desejo
e desconhecido
(seguira desconhecido)

Há outros caminhos
o céu perdeu suas cores
A porta abre
e o cheiro azedo
diz que eu errei
o caminho de casa.

:: Domingo, Julho 17, 2005 ::

Bailarina

(coloquei a mão no seu ombro)
e se esse sopro
vindo de não-sei-onde
for crisálido sonho?

as dançarinas esconderam
suas faces para o choro.
A dor deu voltas
para si mesma
- soberba e medo
que vem se repetindo.
Mas algo vibra ante o temer
rompe em silêncio poluído
de anestesia.

O que mais fala
por nós?
Inexatos pela simetria
nesse despertar sóbrio
para a magia.

Os calos cantam
celebrando as feridas
Temo tu não veres fim
em ti mesmo.


:: habitante de mim 1:27 PM
...

Sombrais

tão estúpidos teus pingos
doces
de cólera arrependida
eu sempre espero, mas eles nunca vêm
me cubro de noite
sorrindo em desdém


como a dança dos restos (solitários)
a mercê de encontros
transando misturas
de sujeira rubra
maldito juízo que
recorta as figuras
raras, e únicas
Pulsam compridas
em pulsos puídos
des-figura
toda menção

:: habitante de mim 12:39 AM
:: Quinta-feira, Julho 14, 2005 ::
Era pra ser surpresa, mas achei tão legal a apresentação do meu livro, que preciso compartilhar.
Voi lá!

Resposta de Eva

O título acima é o de um dos poemas de Eliane, que tiveram que ficar de fora desta antologia. A guria escreve muito e tivemos que estabelecer critérios para que pudéssemos fechar o livro. Um deles: provocar, tudo bem, mas invectivar contra o santo dos santos homens, aí o buraco é mais embaixo ('filho da puta/ das costelas que me concedeste...', começa ela).

Seu irmão, Arlênio Rubi, diretor artístico do Balett do Mariano Pinto, vai à Missa todos os domingos. Por que comprar briga com os seus? Não. Arlênio tem justificadas razões para entender que sentará no colo de Deus-Pai, logo, não podemos colocar em risco suas aspirações mais íntimas.

('Divino, porra nenhuma!', escreve a impossível, 'Toma de volta essas costelas / mal-amadas / Não careço de restos / para dar-me aos homens'. O bailarino teve um ataque tal que o Almodóvar entrou em contato para negociar a continuação de seu Mulheres à beira de um ataque de nervos, Rubi substituindo a Carmen Maura. Só não filmou porque o Banderas anda a meio pau depois que casou com a Melanie.)

O que podemos adiantar é que Eliane, melancólica, pessimista, que se diz impotente diante das imposições da vida em sociedade, sabe muito bem se defender. Atira pra tudo quanto é lado, e certeira. Porque existe um lado dark no mundo (se até na lua tem!), para o qual não gostamos de olhar, então é preciso, de quando em vez, alguém aventurar-se por essas paragens, para que possamos continuar nossa vidinha de sempre, sem maiores riscos entre o berçário e o necrotério. 'O que vem depois, sigam-me, que eu garanto', diz o irmão, arrastando seu manto diáfano.

Eliane não é diáfana. Provavelmente, não vai para o céu.


*Pipo Randall, PhD


(* José Carlos Queiroga - grande mentor)

:: habitante de mim 4:08 PM
...
:: Terça-feira, Julho 12, 2005 ::

Acontecimento

Minhas lembranças
romperam com o suave
ficou o gosto
de sua avidez.

A noite invadiu ao sopro árduo
essas ruas de sorriso árido
de rimas tortas
sem sombras e mortas

Ainda era escuro
tão negro seu despertar
Percorri os lados
sem me tentar olhar
o que se passa...
(comigo)
Num imperativo de burlar
alguma lei da pata-física
além da névoa cerrada
comprimindo meu vôo
mentiroso e cansado.

Não cheguei ao encontro
esperei
sem respostas
Talvez meu cheiro
talvez...
o sol se fez fechado
Não consegui engolir
as coisas pequenas
Rompi os traços


:: habitante de mim 3:17 PM
...
Só Louco! Só Poeta!

No ar purificado,
quando já o refrigério do orvalho
goteja sobre a terra,
invisível, inaudível também
- pois o consolador orvalho usa
sapato delicado, como todos os apaziguadores -
recordas-te então, recordas-te, coração ardente,
como outrora tinhas sede,
enquanto nas veredas amarelecidas
olhares perversos do sol poente
te perseguiam através de árvores negras,
olhares ofuscantes de fogo solar, olhares maliciosos.
- Pretendente da verdade - tu? escarneciam eles
um bicho astuto, predador, rastejante,
que tem que mentir,
que tem que mentir deliberadamente, voluntariamente
disfarçado de variegadas cores,
máscara para si próprio,
de si próprio presa
isto - o pretendente da verdade?...
Só Louco! Só Poeta!
Só falando à toa,
sob máscaras de louco falando à toa,
subindo por mentirosas pontes de palavras,
por arco-íris de mentiras
entre falsos céus
vagueando, rastejando -
só louco! só poeta!...

Isto - o pretendente da verdade?...

Não quieto, rígido, liso, frio,
tornado estátua,
não como coluna de deus
colocada diante dos templos,
guardião de um deus:
não! hostil a essas estátuas de virtude,
mais íntimo dos desertos que dos templos,
cheio de felina malícia
saltando por qualquer janela
upa! para todo o acaso,
pelo faro procurando qualquer floresta virgem
para que nas florestas virgens,
entre feras de pêlo malhado,
corresses pecaminosamente são e belo e colorido
com beiços lúbricos,
ditosamente escarninho, infernal, sanguinário,
corresses roubando, rastejando, mentindo...

Ou semelhante à águia que longa,
longamente fixa os abismos,
os seus abismos...
- Oh! como estes se enroscam lá para baixo,
para o fundo, para dentro,
em profundezas cada vez mais fundas! -
Então,
de súbito,
em vôo picado,
num rasgo palpitante
cair sobre os cordeiros,
repentina, voraz,
ávida de cordeiros,
hostil a todas as almas de cordeiros,
raivosamente hostil a tudo o que tem olhos
virtuosos, de carneiro, de lã encaracolada,
a toda a estupidez, à leitosa benevolência de cordeiro...

Assim,
de águia, de pantera,
são os anseios do poeta,
são os teus anseios sob mil máscaras,
ó louco! ó poeta!...

Tu que viste o homem
como deus tanto como carneiro - ,
despedaçar o deus no homem
tal como o carneiro no homem
e rir despedaçando -
isto, isto é tua ventura,
ventura de pantera e águia,
ventura de poeta e louco!...

No ar purificado,
quando já a foice da lua
verde por entre vermelhos purpúreos
e ciumenta desliza,
- hostil ao dia,
a cada passo secretamente
ceifando as roseiras balouçantes
até caírem,
afundarem-se pálidas em direção à noite:
assim eu mesmo caí outrora
da minha loucura da verdade
dos meus anseios de dia,
cansado do dia, doente da luz,
- caí, para o fundo, para a noite, para a sombra,
abrasado e sedento
de um verdade
- recordas-te ainda, recordas-te, coração ardente,
da sede que então sentias? -
ah, que eu seja banido
de toda a verdade!

Só Louco! Só poeta!...

(Frederico Nietzsche)