:: Quinta-feira, Junho 30, 2005 ::

Budismo Secreto

O triunfo moral da mediocridade
é esse sentimento seguro
de estar num grande rebanho.

O amor quebrou essa espinha
Faz falta a solidão vazia e sentida.

'Queremos que um dia
não haja nada a temer.'
- grita uma ovelha negra.
Ela vai morrer, sua perna está quebrada.
(Os valores têm como espelho a situação)
A noite age
em silêncio
quase imperceptível,
quando as feridas se banham,
tão logo,
o momento é do sono
(melhor não ver sentido)

:: habitante de mim 7:58 PM
...

Ver é raiz de te me

Foram, aqueles ramos
antes do outono, verdes
Tua criança se esconde
atrás da folhagem
não posso
ver-te

A luz que reflete
contra o 'espelho de ver-me'
causa cegueira
(qual me despe)
Esse louco que habita em ti
vê-me
- Eu tento
mas tudo que vejo
cá dentro
é verme.


:: habitante de mim 7:56 PM
...

Seqüestro

há vida rompendo
o concreto limo.
É limbo

:: habitante de mim 7:54 PM
...

Efeito do afeto

Não tenho sono
para o conforto do sonho.
Arregalado em insônia
sonhos estão ao lado
do meu corpo
coberto de inércia.
O sonho zomba em dança
da minha quietude.

eu me corto
perante ao Sonho
que se move
e é nada
é morte.
Meu sono combate
esse descanso calado.

:: habitante de mim 7:54 PM
:: Quarta-feira, Junho 22, 2005 ::

"Suaves são as cores da indiferença." (Rubem Fonseca)


Je ou Moi

Passivo ou ativo?
Sobre o tempo não se diz
Quando percebe-se
Já foi

Rimbaud compôs a fórmula:
conhecer o mundo
matando as leis.
(sentir durante, não após
depois está acabado,
não existe mais)
Verbo-eu
De mãos dadas com o devir.

Eu? Estanque e sozinho.
Resta como dúvida falida,
mas consciente. Sempre.
(não é tempo)

Desregrar os sentidos...
Alguém observa
toca
desaparece...
alguém se importa
enquanto respira.


:: habitante de mim 10:32 AM
...
:: Quinta-feira, Junho 16, 2005 ::

Ao lado

diga-me uma coisa
Qual diabo és tu?
Pouco me preocupo com tempo
e das rugas que se acumularam
no olhar

Explanar o óbvio
contrariar o não-dito
Falar, rosnar
Não me serve
Quero somente que acene
familiar - para saber quem é

Não tenho dormido bem essas noites
nem cartas escrevo mais
algo na pele tem se calado
O cinza já é quase branco
de tão raro

Tão pouco tenho ouvido meus vizinhos
todos choros cessaram
:: habitante de mim 6:06 PM
...
:: Segunda-feira, Junho 13, 2005 ::

Cerca com quatro fios

Eu acordo
e sinto o peso
de estar só.
"Por que não me disse?,
assim te lembraria de ir."
Foi o que ela me disse.

Foi confortável
Ter o abraço dela
Sentir o perfume de seus cabelos oleosos
O olhar enrugado, mas nunca cansado

É tão perto de casa
que quase a sinto aqui
É tão certo
que quando acordo
ainda a respiro

O que ela me diz?
São sonhos

:: habitante de mim 4:54 PM
...

Três Dedos

Bate febril!
Espanca, a Flor é bela
germe é doce
o descompasso
é quase-morte

Ainda não
me disseste que era só pedaço
Só que o tudo me engoliu nada
Gritei, gritei
A batida é suave
lilás e laranja

Me disseste que iria tirar férias
era só folha verde
a me refrescar e proteger
Devorei a cabeça
do inseto insignificante
que agora me faz falta

O que é aquilo
que brilha ao escuro?
És tu, fantasma?
As palavras
eu as toco.
Elas sussurram
não levam porradas.
Ejaculam idéias(.)

Não, sem antes me conhecer.
Estás tão pálido
Me incomoda ver-te imóvel.
Folhas verdes se desprendem
no outono.
Por que ainda estás preso?

:: habitante de mim 4:52 PM
...

Ontologicamente berkeleyana

Eu preciso dos meus amigos... por favor...
Quanto tempo é semana que vem?
O que há com as pessoas que ninguém sorri?
Que falta me fazem os banguelas... e os pierrots.



Rotten Apples
(Smashing Pumpkins)

Dirty your face with longing and grace God given
Suffer her heart and love her when your love goes unrequited
Where the cool winds blow I must surely go
For my love calls me below to drag her from the depths of my soul

When will I see her again?
The other side of friends
The darkened claws of death
The empty breath desire

Dirty your face with longing and grace God given
Suffer her heart and love her when your love goes unrequited
Restless in my speech
And rootless in my teach
So vacant in my breach
I drive the dirt of her garden
Sorrow

She'll never listen again
No other lovers to bend
Just rotten apples to eat
Just letter yellowed distant scorn

Dirty your face with longing and grace God given
Suffer her heart and love her when your love goes unrequited
Life just fades away
Purity just begs
Dust to dust, we're wired into sadness

:: habitante de mim 4:44 PM
...
:: Quarta-feira, Junho 08, 2005 ::

Recorte

O céu multicores
virou fotografia
mil pedaços (quebrados)
da beleza da dor
e ela dor mia (minha, só minha)

pássaros não voam
por esses dias
O movimento foge do absoluto.

:: habitante de mim 5:44 PM
...
Dunas

the breath
the sweet sea
is true
my really bear
is here
holding me
all time

É a brisa
quente
agostina
meu tempo
convence as luzes
a perpetuarem
na escuridão

the lights
lost the answers
mouth closed
Cos dreams be
die'ng
without memories
Kill the queen
Before
that she cuts your head.

:: habitante de mim 5:43 PM
...
:: Segunda-feira, Junho 06, 2005 ::
Memória da Melancolia

Eu fico pensando
na minha solidão
pensando no que escreveste
no rosto de Sofia

São tantas feridas
que se negam a fechar.
Não sei bem se perdi
pois nunca sei o que procuro.
Queria sentir a dor de todos
que amo e que sofrem
mas de nada serve meu sofrer
as feridas não fecham

Como é ser feliz ao lado de alguém?
Isso é tão fugaz
já não me lembro.
Eu já tentei fechar os olhos
dizer a mim mesma
que tudo era um sonho.
Busquei não ouvir
o que meu corpo dizia,
Não abri as cartas,
Deixei o sol mudar o sentido das coisas
para eu me sentir melhor.

E hoje nublou
(está ficando frio)
Sou eu a minha vida,
não é?

:: habitante de mim 4:54 PM
...
Em busca de um começo
(releitura do texto de José Luiz)

a faca cai
e a lâmina é parte voraz
de conseqüência fúnebre

a faca vai
atrás de um fim

No fim há outro começo
(ironia paradoxalmente vital)

Na procura do que se perdeu
encontra-se o fim
chegando ao começo
novamente

O peito era missuração densa
de Decepção amarga, e desilusão doída
Angústia patológica
sinalizava o pior sintoma: - o desespero

E pensando nisso
caminho árduo.
Penso nos olhos perdidos
em meio ao reflexo da faca
Não vejo, mas penso

o fato vira ato
E sei o que é perder o brilho
dos seus próprios olhos
As janelas da alma cerraram-se

A alma teve face a face
o frio da morte que a convidou para partir.

O sangue sai
A vida escorre
Mais e mais... agonia
E não se quer mais
partir não hoje, não agora
não assim

Um grito ecoa
grito inesquecível daquele
que nasce novamente

Cínico, triste e depressivo sorriso
de outrora
Agora nota o sentido de ser
Busca-se a morte
encontra-se a vida - regada de força.

Força que impressiona
essa alma perdida em um mundo perdido
Mas o cego vê, e encontra respostas.

Irei renascer, como minha querida
Redescobrir a força,
Consolar-me com a segunda chance

Através da faca...
que era espelho.
Reflete-se o sol
compreende seu ver.

:: Segunda-feira, Maio 23, 2005 ::

Resposta de Eva

filho-da-puta
das costelas que me concedeste
uma enfiei no cú do teu deus
a outra me masturbei

Mas em ti habitava a sifílis
herdada de tua mãe virgem
e do teu pai capado

Fiquei doente presa
no eterno
a luz babilônica
resplandeceu
devorei o mundo
gostei dos gozos profundos
Teu destino profanado
O único choro e gemido
que escuto
são os cá meu lado

Divino, porra nenhuma!
pecas em estar
cristalizado no ressentimento futuro
Toma de volta essas costelas
mal-amadas
Não careço de restos
para dar-me aos homens

:: habitante de mim 5:41 PM [+]

... :: Terça-feira, Maio 17, 2005 ::

Trama

Traria a cura
as peles rasgadas
cobrindo o meio fio
Ajoelhei-me meio a rua
preto e branco
continuaram quase-quedas
artificiais

Eu não esperava
eu me toquei com o cinza
repleto de cortes
mortes sequenciais
claro com o escuro
misturei-me ao chão
:: habitante de mim 1:20 PM
...
:: Segunda-feira, Maio 09, 2005 ::
Mil tons do nascimento
(escrito por um locutor de rádio)

Piazzolla???
mentiste que sabias
só é preciso mais vinho
limpar as lentes e rever o cotidiano

(sou pampa cinza e verde)
é sempre culpa do passado que é raízes
(Maria vai)
é o simples que vive
com voz suave e palavras repetidas

O abondono nos tonéis
daqueles que fecham os olhos para esconder
o que tu mentiste que sabias
é piazzolla me tocando com tensa beleza
silêncio que não desperta
no domingo que não tem pressa
de passar
(nada más, nada más)

Chega de sentido.
Sinto
nia.
"est niais"

:: habitante de mim 10:31 AM
...

arte técnica

semântica epistemológica
macacos pathos
os galhos se inspiram em raízes
para tocar o céu
(mais presos estão ao chão
aqueles desejos de perfume metafísico)


:: habitante de mim 10:28 AM
...
:: Sexta-feira, Maio 06, 2005 ::
ou sim

todo dia permanece hoje
com a condição que hoje, escureça
e não tenha horizonte aurora
além da dor que eu receba
sem me sentir pobre
e impotente
sem merecer cruz
arranhar-me e ter a ferida sempre aberta

a pergunta inicial sempre em pedaços
os pedaços, hoje, são minhas verdades
o cheiro pré menstrual
é mistura de ontem com amanhã
que está em pedaços

o hoje existe com sentimento de não mais existir
foda-se
não cabe somente a terra acolher os restos
pouco comporta-se em mim o que chamo pedaços
alguém os expulsa
eu os espanco à gritos
depois peço desculpas
e eles retornam

cheios de mágoa e vingança
eu canto e adormeço meus traumas
a impotência adormece
já posso abrir a janela
deixo a poeira espacial ir sem beijos de adeus
as pílulas para dormir estão acabando
não sei até quando meus pedaços impotentes
estarão inertes em seu sono casto e mesquinho
Quando não me suporto
o podre em pedaços
rasteja até o colo da merda-cor-terra.

:: habitante de mim 6:11 PM
...

Camada

eu
que O nada vejo
eu
que O nada sou

Limites
O que importa
é somente o que restou

O sol que sempre se põe
e que nunca vejo inteiro
do nunca que sempre me desejou
do seu desejo não tenho

O nunca me tocou
e eu fiquei só
presa no sempre
na repetição
de saber que o nada
sou

:: habitante de mim 6:11 PM
Do que apodreceu

Joguei cutículas
sobre meus lençóis
- Não faz mal
Eles precisam ser lavados
Muito aqui dentro
precisa ser renovado

Tantas vezes me desfaço
contemplo a vida longe
me esqueço
do sentido da palavra cotidiano
e essa memória se esvai
dos dias que estão
do dias calados indiferentes
que não se assemelham
são apenas desiguais

:: Quinta-feira, Abril 28, 2005 ::

A Cor da dor

Faltou o doer da perda
(azul tristeza)
Bate prazer, vermelho gozo
A memória derme, geme roxo

O insulto daquele rapaz bruto
não é pancada rasa
é dar de costas mudo
A memória cede, cor de choro

Maneira sinestésica para a violência
qual ri.
O azul é fase nobre
dos hematomas que não chegam a doer.

:: habitante de mim 6:23 PM

... :: Segunda-feira, Abril 25, 2005 ::

Catrina

De leves sopros em candelábros
Sozinha, Catrina sorri
Condensado, enigmático
o lilás só não é roxo
por falta de mais socos

É nobre o bater
pertence ao sangue azul
Precisa-se de mais tufões
para tudo que ela construiu findar
Restará a maldita molécula esquecida
que será lembrança de todo o resto

Catrina despiu-se para a dor
Nua, comprimida em existência respiratória
Com o mais desprezível nome
título, raça, sexualidade
Para nós, os burgueses
ela é molecula representativa insignificante.


:: habitante de mim 12:05 PM
...
:: Quarta-feira, Abril 13, 2005 ::
Finalmente sorrindo... e costurando a ferida


Don't leave the light on baby
(Belle and Sebastian)

It's been a bloody stupid day
My baby called me up to say
Don't call me love, don't call me
It's not all she said

I truly love her but I know
I'm bad for her, I'm bad and so
At least she may forgive me for my honesty

My friend came back from being abroad
He was rich and I was overawed
His ship came in
I'm standing on the harbour wall

Another friend, the one I love
Turns to me have you seen enough?
Let's hang about
There's nothing like a sunset

It's been a bloody stupid day
Don't leave the light on baby
My baby called me up to say
Don't leave the light on baby
I'll see you sometime maybe
Don't leave the light on baby
It finally dawned on me tonight
Best to go down without a fight
I know you will forgive me for my honesty

:: habitante de mim 1:45 PM
...
:: Quinta-feira, Abril 07, 2005 :: Se chama Elementos do Sustento
(e passou por uma interpretação psicológica... eu achei engraçado... mas quem sabe não faz parte dos meus traumas... hahaha)



Falando em pscicologia, muito obrigada pela força minha maninha querida, a "comunicação pura" nos envolve, e me deixa feliz como as bolhas que me ofereces.

:: Quarta-feira, Março 23, 2005 ::

A(stro)nomalia

Por que foguetes
não encontram planetas?
Pedras?
Sujeira?

- Analisar o nono universo
Encontrado no meu segundo
dedo
Planeta Mofo

Quente
Úmido
Silencioso

"olá"
pára-raios descartáveis
Não habitável
(por mim)
não explicável
(ao sim)
ciência maçante

Por que dançarinas
se comportam à mesa?
Cega
Viva

Quando a janela se fechou
Usei outro espelho
Visões de dentro
do teu seio
São fedidos
- Os corredores que não vejo

Ventilado
Habitável
Perigoso

O alvo não está puro
O vestido da menina
Radia ouro
Ela está próxima
do canto
Para dançar

Por que as memórias
se preservam caducas?
Ácidas
Denúncias

Na cavidade lunar
Ficaram marcados
- todos passos elementares
Não tem cor
sorrisos falsos
(como tudo que assim o é)

Corrompido
Eloqüente
Genocida

Elongação entre mim
e os ditos buracos
O colar
Que guardaste em meu pescoço
"Esqueci de te contar"
o perdi
me foi roubado
pela goela do poço.

:: habitante de mim 6:14 PM
...

Lodo

Daquilo que te persegue
Estenda a mão
Pergunte aonde quer te levar
Nas esquinas desvias do sujo
Talvez não tentaste pular alto

Não pule
Foguetes alienígenas
Abriram as portas
para coisas
ocultas mancharem teus sapatos

:: habitante de mim 6:13 PM
...

Apologia a Dionísio-homem

Ninguém (humano) é dono da verdade
está nítido
Nietsche na mente
de mente
Nietsche-da-mente

Claro
- luz do ovo (florescente)

Do que não se deve falar:
Grite!
Nietsche

Deus não é palavra
dotada de significado
Deus é fé (e ópio)

Quem é o inimigo da fé?
Nietschida resposta
Criar vírus (e monstrinhos do armário) é conseqüência
de criar cura.

Mais uma pergunta?
Vinte e seis capítulos de insatisfação.
A luz (sombria) do argumento.

:: habitante de mim 6:13 PM

Contra Senso

Para poucos sons existem palavras
Muito emudece
por falta de ouvidos

Nessa noite
o que não é toque quebrou
A teia sente cada movimento
Voe sobre ela e pise tranqüilo
Nem todas portas abertas
são convites para entrar
:: habitante de mim 6:12 PM
...

Para-quedas

Eu estarei livre ao seu lado
Estás aqui, então não olhe para trás
(Há que distância? Nunca sei se é você ou és tu...)

Deveria ter te ensinado a voar
para ser penetrado do alto
E mudar meu sentido
para sempre te ver sorrindo

:: habitante de mim 6:10 PM
...
Atrás da Voz

Nada de brilhantismo
afinal
o processo é contínuo

mas há momentos
que a respiração pára

Eu caminho para o meu cansaço
hoje ele é físico
e anestesia a existência
Sou pele e articulações mal definidas

Pontas de cigarros que não fumei
relaxam meu olhar
Progredir é suicídio

O seguinte enaltece o descanço
Andar e andar
ser vento quente
e suar...

É tão suave como gelo
e teu dedilhar
As aulas de violino começam mês que vêm
Não sei até onde quero te encontrar

Antes de meus dias
recordo

:: habitante de mim 6:09 PM ...
:: Quarta-feira, Março 16, 2005 ::

Mil pés ao fundo

Nas últimas noites
tenho dormido
E não me dispo
para o sonho.
Arregalo pálpebras
sem distinguir
as sombras cinzas.

Minha dor indigesta
já perdeu nome
e se misturou a tantas outras
de pessoas as quais
conheço seus nomes...

E quem são elas
que acenam melancolia
postadas em letra cursiva?
Eu carrego muitas dores impotentes,
já que dores não são respostas
mas sim questões.

A retina turva se banhou
em arcos que não cuspiam flechas.
Estou tentando a melhora
mas algo atrás de mim
insiste em atirar.
Dou de ombros.
Nunca me foi necessário correr léguas
para obter um profundo cansaço.

:: habitante de mim 6:43 PM
...

Post-Scriptum
(Fernando Pessoa)

Gostaria de saber
Com que sonha quem não sonha,
Que tem para se entreter
E fazer meio risonha
A vida que ha por viver...

Gostaria de sentir
Como é a alma que vive
Sem para a alma sorrir...
Eu sonhei e nada obtive.
Sonharei sem conseguir.

Mas do que fiz e que faço,
Que é nada, como o é tudo,
Guardo no meu ser o traço
Do sonho que me faz mudo,
E rio-me do cansaço...

Os grandes homens da terra,
Os que fazem, sem grammatica,
Phrases de paz e de guerra,
E sabem tudo da práctica
Salvo que a práctica erra -

Ah, esses teem presença
Multidão e biografia...
Que o Fado os tenha na crença
Que esse valer tem valia!
Casei com a diferença.

:: habitante de mim 6:30 PM ...
Quinto poema

Preciso chorar,
as lágrimas faltam.
Tem dias que os dias
nem se quer se importam
em passar.

Estou tão soturna e doída
como nunca.
É mentira
já estive pior
mas o pior passado
não dói mais que esse que está aqui
me cansando.
As lágrimas não caem
Por que doer tanto?
É amor, dinheiro, status que falta?
Se não falta, o que sobra?
Se não há excessos e carências,
o que se mantém estanque?
Qual foi o corte dessa vez?

Eu não sei...
eu não sei.
Quanta impotência em não saber
Sócrates era hipócrita,
ele sabia seu doer.
Eu também sei,
mas não o creio.

Resta as lágrimas
ou o ópio (deus, ou haxixe).
Adormecer a dor
é não querer que ela cicatrize.
Eu quero marcas sólidas
consumadas em seu próprio início.

É mentira que as dores passam
Mar é dor
e as ondas sempre voltam
sem permanecer.

:: habitante de mim 6:13 PM
...
:: Sexta-feira, Março 04, 2005 ::

O Cheiro do ralo

Com acegueira
aprendi a amaciar minhas mãos
curar os calos
lavar os sonhos.

Paro por instantes
e tento ouvir os gritos.
São dores endurecidas
amaciadas pela cegueira.
Aprendi a cantar nossos hinos
de louvor à terra
de louvor ao Messias que peca

O belo sorri e chora.
Eu apenas contemplo
sem criar calos nas mãos.

O silêncio soprou
E eu não posso dizer mais nada.

:: habitante de mim 11:28 AM
...

Não há nada

Só a gente cabe
amar
sua imagem e semelhança

É pintura única
o amor cabe na moldura
do reflexo-eu.

:: Segunda-feira, Fevereiro 28, 2005 ::

Diálogo (entre o surdo e o mundo)

O querer dizer
morre
quando dito

a palavra respira
num pulmão tuberculoso
tosse, cospe
ganha formas
na medida que cai

O se fazer entender
já nasce falido.

:: habitante de mim 11:59 AM
...

Dia de descanso

A dor passa
compreendi todos motivos
mas articular o que dizer
ainda é tão difícil

Sei de todos porquês
de toda hipocrisia
Eu canso
de ter que chorar
ao olhar das tuas costas vazias

Calar
com todo o meu cinismo
lembrar que o tempo é movimento
Eu existo e insisto
no viver

"Aleinn Á Ný"

:: habitante de mim 11:59 AM
...

Poema que restou

Eu não reclamo
a vida se resume bosta
mas se não for isso
com o que posso adubar
o que cultivo?

É dor, mágoa, náusea
Eu não reclamo
todo suor, lágrima, muco
é verdadeiro
é resto
Onde se sustenta o estar
Tragicomédia fluente
comunicando a beleza
morta pelo temível caos.

:: habitante de mim 11:58 AM
...
:: Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005 ::

Crepuslunar

O movimento
constante estrangeiro
abriga o vento nesse costeiro
E mesmo que a água incompreenda a seca
O corpo deseja calor por entre a lama negra

E como se
cegado pelo sol
ensurdecido pelo vento
O que vagueia entre os campos
não são massanilhas ou pampeanos
Só a alma solitária
que contempla em silêncio
o todo incalculável

Por entre as pernas
vê o dia morrer
corre a penumbra - lua nova
tão obscura quanto o não ser.

:: habitante de mim 3:07 PM
...

da Segunda Maria

Lâmpada suspensa
em céu mofo
Luzia os campos de dor
sempre serena.

:: habitante de mim 3:06 PM
...

*Moonspell

ela está sobre minha cabeça
pelas janelas não posso ver

(e pesa muito?)

não há nuvens
há sol lunar que mingua
e pesa menos que meus problemas


(*assim batizado pelo caro Vagner... poderia chamar o viver como eterno recolher de fragmentos poéticos... quem sabe assim é como quero que seja)

:: habitante de mim 3:05 PM
...

Eu me identifico com o vento... já disse isso, mas isso é muito belo, minha pele que o diga...


Na minha solidão
(Gujo Teixeira)

- De repente, as coisas mais comuns me foram ausentes.
E o sorriso que andava num retrato, desbotou...
- De repente, as saudades que habitavam minha gente
me trouxeram lentamente, ao lugar aonde estou...

Aqui na minha solidão,
sou dono do meu tempo
e ele é quem me faz pensar em mim...
Eu visito meus recuerdos e diviso as distâncias
e ainda busco meus limites mesmo assim

Não sei porque, não sei...
Porque que tua voz me faz ouvir
silêncios que não sei nem mais sentir!
Deixando tão ausente outras palavras
que o tempo foi calando na garganta
perdendo a força que ela tinha, e era tanta!
- Parecendo que não vinha mais de ti.

Faz bem pra mim...
Guardar e revirar o meu passado
olhar pra trás e ver tudo mudado
os silêncios que eu tinha e perdi.
Faz bem eu sei...
Recordar as tuas cores nos retratos
minha gente o tempo exato
das saudades que andavam por aqui.


O que dizer do meu amor por milongas, ainda mais com letras assim...

:: Quarta-feira, Janeiro 26, 2005 ::

Continente

Ainda que seja mágica
O vento é inseguro
e o ar não propõe sentir
apenas sopro.

Ler os olhos - que não são alma
Até transpirar
arrepios na derme da percepção
E só assim
não pensar na verdade,
e aceitá-la viva.

(Morrer para deixar de ser
E enquanto há sono
Viver)

Superei as trintas noites
de lua vazia
Mas há silêncio que
sempre responde a meu clamor
Eu emudeci
e quando senti o sopro da tua voz
(me) perdi.

:: habitante de mim 1:10 AM
...

A forma do ar

A lua encontro num café
O vinho nos cantos
E o vento?
Esse não encontro no passado
O vento não se presencia na memória

Das vezes que o senti
Não lembro de seu rosto
Nem de como eu o tocava
Sei apenas de seus lábios
que quentes e hábeis
tocavam completo e sincronizado
O corpo sempre desprotegido

E é só, o resto é sonho
Desejos feitos ao escuro
e ao sol
e à pele

O amanhã continua sendo a melhor coisa
que já se fez.

:: habitante de mim 1:02 AM
...
:: Domingo, Janeiro 23, 2005 ::

A alma da alma

é soturno o não estar
compreendido ritmo ventoso
particula da alma
elemento do movimento
é noturno o teu olhar

parte sutil e sem nome
pois nunca coube em palavras
foi sempre sentir
sem pele
e em todo comprimento
do ser
para sempre
fragmentado
:: habitante de mim 12:46 AM
...
:: Segunda-feira, Janeiro 17, 2005 ::

Longe - II

As flores que não via
monitoram o meu ser.
Elas não estão aqui
mas carrego imagens
e aos poucos descubro
que tua linguagem se veste em pele
se fazendo entender
pelo som ofuscado
do brilho, das pedras.

Amores passados morrerão no silêncio
Distância livremente incontável
inexiste perene ao tempo.
Não tirarei nada de seu solo
Nem teu corpo, nem as flores
Pois o perfume sempre chega até mim
Sem corromper o nato, o belo.

:: habitante de mim 6:03 PM
...
:: Quinta-feira, Janeiro 13, 2005 ::

Promessa 1549

Extremamente confusa
Radicalmente suicida
Hoje acordei, e o mundo sorriu totalmente estranho pra mim.
Eu não sorri de volta
Pois tive medo
Inconscientemente não falo com estranhos
Há não ser que esse estranho saiba meu quinto segredo.

O mundo não sabe dos meus segredos
Eu não os contei
Eu não guardo segredos
Eles que me guardam.

Vulgarmente desarmônico
Estupidamente desarmada
O que faço quando sei que não sou mais?
Não me deram garantia nenhuma
Nenhum prazo
Apenas me cuspiram do ventre
E gritaram: - viva!

E lá eu entendo de signos!
Lá eu entendo de verbos!
Viver é ser, não estado.
Gostaria de ser, mas o mundo me foi roubado.
Colocaram esse estranho em seu lugar
E eu junto, sem libido pelo desconhecido.

(Prometo nunca mais gritar símbolos
sem o mínimo de belo,
E culpar os outros por isso.)

:: habitante de mim 3:36 PM
...

Tudo bem que dividimos o mesmo teto, as tpms, as crises, os risos, o sarcasmo... mas por favor... minha flor mais linda escreve divinamente.

Demofobia
(Sandra Espinosa)


Agora lá fora não vejo
senão o mundo
a girar desconexo
fugindo
de tantas pisadas
erradas e tortas.
Agora não penso senão
no deslocamento
a inclinar o homem
para o vazio
tranqüilo
da falta de gravidade.

Mas o que penso eu
em emu célere
devaneio noturno?
Se o planeta sentir
algum peso
em mim
que seja o dos meus pensamentos
absurdos.

Eu suporto o homem.
Eu acredito no amor.

:: habitante de mim 3:34 PM
...

Ateu sem mágoas de Deus

Naquele instante
Nada sobrou
Veio então o vento
E soprou

Carvalhos e Salgueiros
Choravam ao meu passar
Pesado e infantil
Choravam todo pesar
das graças intocadas
As rezas afogadas
no mar desespero

E de joelhos, ainda esperei
Todos os instantes
que jamais alcancei
por não alçar os pés do chão

Apenas voei no que não sobrou
Estendi as mãos para alguém me segurar
As preces se elevaram aos céus
Mas meu corpo nunca soube rezar

:: habitante de mim 3:31 PM
...
:: Terça-feira, Janeiro 11, 2005 ::
education to perform

O meu papel foi queimado
e quando viver se torna improviso
frequentemente se erra
fingindo compreende-los como acertos.

Olhando para os pés ao lado
não aprendo a dança,
ao mesmo tempo meu corpo cansa.
E está no roteiro
que corpo não é mente
não é célula.
Ser corpo é atuar
sem ser autor de seus atos.

Quando a cortina felpuda se abriu
meu ver cegou,
e até hoje não vejo a luz
é ela que me vê, me rastreia
gritando ação!
só que nesse momento
minha fala é muda
meu papel foi queimado
e não encontro a porta da rua.

:: habitante de mim 3:12 PM
...
:: Sexta-feira, Janeiro 07, 2005 ::
Terremoto

Eu nunca tenho certeza
Já que mentiras me envolvem em seus tentáculos
venosos.
Mentiras são vivas pra sempre
E no sempre ressuscito sem cruz

ou morro para os sonhos
pesados de movimento.
Desperta, tenho medo do que desconheço.
Se apresente a mim
sem ser inteiro e certo
Para que haja novos momentos
Reencarnados no fim

(no fim há luz?).
No fim há sono
para o medonho começo
tão igual e ludibriante.
As diferenças deixaram de ser erros
passaram a sub-tração
deslocando eixos
destruindo meu chão.

:: habitante de mim 6:09 PM
...
Destruição de um Pintor

poderia te pintar
com todas minhas tintas
(anil)
Só o chão não calça
(barro)
o chão é pedra
(calo)

O estado te guia pela mão
(esquerda)
pele solta sobre os ossos
(pele artificial suada)
As palavras estão nuas
(sem pele de pensamento
despidas de sentido)
a tela é construção de ruas

:: habitante de mim 6:08 PM
...
Comentário climático desnecessário

nosso poder de atração aumenta absurdamente no verão. é incrível como tudo se gruda na gente... será que existe alguma lei da física que explique isso?


Lava Agridoce

lá fora a banheira enche
o sal cicatriza os cortes dos pés
(Por que pisas nos cantos?
Temes chorar ao claro?)

aqueles sorrisos
eram sozinhos
pois presentes
se repetem só na memória

lá fora o tudo preenche
é água agridoce com perfume de jasmim
e lava
quente

meus calcanhares
desde ontem
doentes

transborda sabores
dores dormentes
a banheira agridoce suspende
o vazio que não cabe
e escorre
percorre até meu presente

:: Quarta-feira, Dezembro 29, 2004 ::

A Terceira Pessoa

No passado ver(b)sos de cegos
buscaram a inspiração em Eliane
No futuro a luz chegou
e lavou a poesia

Eliane é índia, de tribo nômade
nau em lágrimas
Escuridão encarnada
em pele, alma e maldição

Eliane não será teu centésimo poema
casto, puro, sem marcas
As rugas que encostam a pele (recife pluri-singular)
são caminhos só dela:
Terceira pessoa errante
cinza e raivosa
Goza a dor que tem no peito
ao embalar o amor ainda sereno.
:: habitante de mim 2:00 PM
...
Simples... mas fazer o que, se isso me cativa



Pass It On
(The Coral)

Every day I recognise
What's deceased and what's alive
But don't repeat what I just said
Until boulders turn to lead
Then all the tales will be told
Whilst you and I are in the cold
But don't think this is the end
Cos it's just begun my friend

And when it's done
And all this is gone
Just find a/the(?) feeling pass it on

For every tear cried in shame
There'll be someone else to blame
And every crime that I commit
There'll be a punishement to fit
But I'd accept what's coming round
If I could only lose this sound
That's been ringing in my ears
And tormenting me for years

When it's done
And all this is gone
Just find a/the(?) feeling pass it on

And when it's done
And all this is gone
Just find a feeling pass it on
Just find the feeling pass it on
Just find a feeling pass it on
Just find the feeling pass it on
:: habitante de mim 1:59 PM
...
Fenda no céu

Continue me fazendo acreditar
Suavemente soturno na velocidade
tão distante
que não pode esperar
(mas tudo está bem)

Perco os fios que tecem a vida
Quem sabe um outro caminho?
(ou até mesmo um novinho)
Em ti não vejo fé
apenas sinto
:: habitante de mim 1:59 PM
...
:: Domingo, Dezembro 26, 2004 ::
Eu tava fazendo uma limpeza dentro de mim, e não sei, mas de repente me surgiu essa música na mente, é como uma despedida de coisas antigas, e ainda talvez necessárias ("bato a porta sem ferir o dia").

Adiós, goodbye
(Vitor Ramil)

Coisas que ficaram por dizer
coisas que não tive tempo de ouvir
goodbye, adiós

deixa o sol dormir no meu porão
bato a porta sem ferir o dia
adiós, goodbye

coisas que não canso de esquecer
coisas que se escondem na lembrança
goodbye, adiós

deixa ao vento que quizer levar
minhas folhas secas de utopia
adiós, goodbye

coisas que procuram seu lugar
coisas que me ocupam cada instante
goodbye, adiós

deixa em gelo fino os meus sinais
que ninguém me elega como guia
adiós, goodbye

coisas que acertaram o que sou
coisas que falharam no que não fui
goodbye, adiós

deixa o sol dormir no meu porão
bato a porta sem ferir o dia
adiós, goodbye
:: habitante de mim 3:49 PM
...
:: Terça-feira, Dezembro 21, 2004 ::
Longe

Caminhei
sobre um lugar onde não há
flores
Lembrei de ti
De quão longe é estar ao teu lado
Quebrar os signos
e beijar teus lábios

Corri contra o que ninguém entende
olhei sem abrir os olhos
e encontrei-te aqui deitado
sem sombras
sem dor
apenas tremendo
longe do meu lado

As luzes se esconderiam onde fui
e onde estou?
Nossa indignação
e o sonho que não é medo
compõe o que não é tempo.

:: habitante de mim 11:47 PM
...
:: Segunda-feira, Dezembro 13, 2004 ::
Crônica noturna

Ela entende bem a sua solidão, respeita-a, e sempre quando a sós, elas aprendem muito. Ela se diverte multiplicando a solidão em vários outros seres, os quais não deixam de ser menos solitários do que seu germe. Ela sabe que tudo se transformou em noite, as pessoas não são mais do que alguma coisa. Não pouca, mas alguma coisa.

Ela nada no seu firmamento, que é tão flácido, frágil à luz e ao movimento. Ela sabe que tudo são momentos, e momentos não se repetem, mas são eternos.

Ela desaparece completamente, estando fora de si, ouvindo alguém sussurrar que aquela não sou eu, isso não está acontecendo, já aconteceu.

Ela ignora o tempo, ela brinca com a sua própria solidão. A noite a faz sorrir.

:: habitante de mim 5:43 PM
...

Milonga

É o gosto água e sal
com cheiro de terra doce
No mesmo tom de acorde grave

Sob as nuvens negras
caminho com guarda-lágrimas-do-céu melancolia

Antes dos flashes, e fitar
a porta escrita com teu nome
as nuvens gordas e negras
chamavam-se minhas pálpebras
gotejou em minhas mãos
depois evaporou

Quando o dilúvio veio
Corri para onde não devia
no topo da montanha cinza
vendo o que há no ventre
Nuvens negras geram gritos

Pele tragável sem sol
meu suor é lágrima tombada
depois da chuva
me sinto introspectivamente
em paz
:: habitante de mim 5:42 PM
:: Terça-feira, Dezembro 07, 2004 ::
Ver meus colegas sendo presos e agredidos por porcos ainda me choca, e muito...


Amnésia

odeio quando todas
memórias
me esquecem
e rasgam seus bilhetes
por debaixo da porta

no corredor sem luz
me surpreendo com a não cor
branca
e suspensa

saberia cantar todos hinos
mas pra variar
alguém não fez sua parte
ingênuos e hipócritas esquecidos
lembram do nada
e esquecem de tudo

eu não perdoô
pois germe sem terra
é verme

:: habitante de mim 9:01 PM
...
:: Segunda-feira, Dezembro 06, 2004 ::
ache

Não se lembre
Flores amarelas
são tão meigas
(sabes que eu as
prefiro roxas
sem ar)
Do jardim de onde
as colhe
não nascem espinhos

Até os mais belos sonhos
um dia se tornam
pesadelos
(pesados de medo)
e a terra que um dia
hospedou nosso sono
há de devorar
(como já devora
em silêncio)

Mas não se assute
como disse
basta não lembrar
Flores mortas de hoje
ontem radiavam amarelo
Sem beleza não existe dor
:: habitante de mim 6:28 PM
...
Aprendizado
(Ferreira Gullar)


Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.




in BARULHOS (1980-1987)

:: habitante de mim 6:28 PM
...
Luzes na ponte, é noite!

Observo aqueles que não me veêm
(no escuro me oculto
e procuro pelo quê está além)
Escrevo mentiras
para aqueles que não vêm
Eu vejo as luzes
só eu e o mundo
Mas não sei quanto do tudo
me mantém
:: habitante de mim 6:27 PM
...
Ao princípio
(Iacir Anderson Freitas)

as palavras perderam-se
pelo chão comum
da mitologias, ah
decerto não souberam chegar
ao princípio
ao âmago
ao núcleo da água e do limo
(quem as visse
ante o ouvido endurecido
do tempo. já perdidas,
rogando clemência ou nacos de pão
ou vinho)

mas nada, nada resta agora
das palavras,
sua geometria quebrou-se,
desolada.

pois que não fique pedra sobre pedra,
pois que nada sobre os ventos frutifique
e entre o extremo recinto da palavra
fique apenas a lembrança de uma nau,
sozinha,
e um dique.
:: habitante de mim 6:27 PM
...
:: Sexta-feira, Dezembro 03, 2004 ::
É pouco, mas transpira muito.

Black Out
(Muse)

don't kid yourself
and don't fool yourself
this love's too good to last
and im too old to dream

don't grow up too fast
and don't embrace the past
this life's too good to last
and i'm too young too care

don't kid yourself
and don't fool yourself,
this life could be the last
and we're too young to see

:: habitante de mim 5:52 PM
...
É engraçado encontrar escritos velhos, o texto que vem a seguir é o esboço do meu primeiro romance (que como vários ficou só no esboço), não tenho a data exata, mas tinha no máximo dezesseis anos. Acredito que só não o levei adiante por ser muito auto-biográfico naquele momento. Mas foi bom achar isso, mexeu com a minha memória.


Vasto e sem fim

- Que lindo são seus olhos, esse verde é tão bonito quanto o do mar! 'Essa expressão, foi não só a expressão que predominou a minha infância, mas como em toda a minha vida, mas acontece que após o elogia vinha o comentário: - Mas o seu olhar é tão triste'

Aquela tristeza era apenas o reflexo de como estava por dentro. Pra falar a verdade acho que já nasci triste.
Lembro-me que na escola enquanto todos brincavam, eu apenas observava, todos me chamavam de Carlito Esquisito.

Esquisito... por causa disso fui parar no psiquiatra várias vezes. Só me diziam que era estresse da adolescência. Mas tem uma coisa que apesar de tudo eu não esqueci. Passado um tempo eu comecei a me enturmar, e um dia lá estava eu pulando corda e de repente percebo uma menina adolescente, de uns 17 a 20 anos sentada num canto. E ela me olhava, mas um olhar tão acolhedor e compreensivo, como se ela soubesse tudo sobre mim. Desde então foi que comecei a me perguntar quem era ela e por que me olhava daquele jeito.

Passado aquilo voltei pra aula e encontro um bilhete em cima da minha classe, dizendo: 'Eu senti toda a dúvida que tem o seu olhar e sei como se sente. Já passei por isso.'

Fiquei muito espantado com aquilo, como? Eu tinha certeza de quem tinha escrito aquele bilhete - foi ela. Mas como ela deixou o bilhete lá seu eu vi ela ir embora. Será que ela era um fantasma?

Então fiquei confuso, e pensando o que será que ela sabe, nunca tinha falado de mim pra ninguém. Era estranho porque não me lembrava do seu rosto, apenas dos olhos, aqueles olhos castanhos e profundos.

Não conseguia me concentrar em nada, volta e meia lia aquele bilhete. Passou semanas e nada mudou, aquele olhar e aquelas palavras não saiam da minha cabeça. Mas o mais estranho é que eu não vi mais ela, além dos meus sonhos, onde eu apenas a reconhecia pelo olhar. Nos meus sonhos, sempre se repetia a mesma cena, ela entrava em uma sala escura e com o teto transparente, onde se enxergava as estrelas, eu estava sentado em várias almofadas vermelhas e com velas ao redor da sala. Ela trazia em suas mãos uma espécie de livrou ou caderno, fechado¿ não sei direito¿ e me dizendo as mesmas palavras do bilhete. A voz do sonho era uma voz melódica e um pouco grave. E era como se os seus olhos estivessem falando.

E assim o sonho se repetiu por vários dias. Até que na saída da escola eu a vejo novamente, encostada em uma árvore, estava linda, apesar de não ter reparado em mais nada além dos olhos. Ela me encarava com um olhar inocente e sedutor, querendo me dizer muitas coisas. Cruzei o portão e quando olhei para trás, ela não estava mais lá. Me arrependi amargamente de não ter ido lá falar com ela. Mas pensando bem, como eu, um pirralho de 9 anos, iria chegar em uma menina quase 10 anos mais velha do que eu, e ainda, uma pessoa que ela nunca conheceu.

Chegando em casa tive um pressentimento e não sei por que, a primeira coisa que fiz foi abrir meu caderno.
Encontrei outro bilhete que dizia: 'Não se preocupe em saber ''quem eu sou'' e ''como eu sou''. Se preocupe em saber ''o que eu sou'''.

Bem, se eu já estava confuso, agora nem se fala. Se antes eu pensava muito nela, agora eu só tinha ela em mente. Eu queria saber quem é ela, como é ela, e o que é ela.

Todas noites eu tinha aquele mesmo sonho, só que agora dizia o que era o que ela trazia nas mãos. Era um diário, o qual era dela, e nele estava escrito o que dizia no segundo bilhete. E por aí parava o sonho.

Com a chegada das provas do final de ano, tratei de estudar. E com o tempo fui tirando ela do meu pensamento.
Chegaram as férias, hora de descanso, pra falar a verdade nem lembro como foram aquelas férias. De vez em quando voltava a ter aqueles sonhos e ficava pensando sobre eles.

O tempo passou tão rápido que quando percebi estava na sétima série, com 13 anos, hormônios a flor da pele, a minha fase difícil dentro da escola havia passado. Segundo a minha visão física estava tudo ótimo. Mas a minha 'outra' visão sentia falta daquele olhar puro e verdadeiro.

Apesar de ter feito várias amizades, ter conhecido muita gente, eu não conseguia ver no olhar das pessoas a mesma pureza do que o olhar dela. Esse assunto parecia meio surreal pra mim, então eu nunca havia contado pra ninguém.

Me apaixonei nesse mesmo ano por uma garota de nome Gabriela, ela foi a minha primeira namorada e de vez em quando ela percebia aquela angustia dentro de mim e perguntava: 'por que esse olhar tão triste' - e eu dizia que não era nada.

A minha mãe, depois que ela se separou do meu pai, não tinha tempo mais pra nada, trabalhava o dia inteiro. Às vezes, ela me dizia que eu andava meio estranho, mas na verdade eu me sentia normal. Não sei por que, mas eu comecei a me sentir bem quando estava triste, me sentia puro e verdadeiro.

Meu círculo de amizades foi aumentando e cada vez mais me sentia no meio da falsidade, me sentia sozinho. No ano seguinte terminou meu namoro, o motivo? Minha namorada dizia que não gostava do meu jeito estranho, e que eu não era igual aos outros, e desconfiava que eu gostava de outra garota. E na verdade eu gostava, de uma garota da qual eu só lembrava do olhar, e que não havia deixado de aparecer em meus sonhos.

Meus amigos começaram a estranhar o meu jeito. Eu comecei a ficar mais em casa, dentro do meu quarto, dormindo pra sonhar com ela, ou então no escuro escutando música. Foi então que minha mão me levou ao psiquiatra. Enquanto ele falava eu ficava sonhando acordado com ela.

Para minha mãe me deixar em paz, resolvi agir da forma que ¿todos¿ queriam, mas nunca mudando o meu 'eu' por dentro.
Acabei virando um cara totalmente artificial na minha visão e perfeito para eles. Andava na moda, usava celular, era um perfeito idiota robótico. Então eu parei de sonhar com ela, e eu havia me tornado o ser mais artificial no mundo. Eu só fazia o que 'eles' queriam e minha mente estava sendo devorada.

Eu me sentia o cara mais triste do mundo e não ficava feliz por isso. Fui em busca da minha paz, e pra isso perdi as coisas mais importantes: a minha personalidade, e a lembrança dela.

Era um feriadão e resolvi ir pro campo, descansar e tentar ser um pouquinho eu mesmo, estava me sentindo tão mal com essa situação. Estava eu sentado no lado de fora olhando pro horizonte, quando de repente vi um vulto. Fui até o arvoredo ver o que era, cheguei no pé de laranja e comecei a olhar paras as nuvens, foi quando senti um arrepio e me deparei com aquele olhar que me hipnotizou e me paralisou.

Eu sabia de quem era aquele olhar, reconheceria no meio de multidões aquele olhar puro e verdadeiro.
Fiquei parado ali por alguns minutos até que consegui gaguejar algumas palavras.
- O que é você?
E como se o vento cantasse em meus ouvidos, telepaticamente ela respondeu:
- Eu sou o que você quiser. Basta você sonhar, acreditar e lutar.

E num piscar de olhos ela sumiu como nas outras vezes. Só que dessa vez aconteceu algo diferente comigo, como se aquilo fosse um passo para eu mudar minha forma de pensar sobre a vida e sobre as coisas.
Aos meus 14 anos, me sentia como se a minha vida tivesse começado, a partir do momento que vi aquela olhar. Sentia minha mente leve e clara, tendo idéias que nunca havia pensado antes.
Comecei a ver o mundo com outros olhos, me prendia em observar detalhes. Em sentir o vento, a luz do sol.
Aquela idéia que eu tinha de ser como os outros queriam, foi exterminada pelo olhar dela, que cada vez mais me fazia querer revê-la, e mudar as coisas em forma de agrado à ela. Re-avaliei cada um dos meus valores, e formei princípios.
Resolvi seguir o que ela havia me dito. Primeiro sonharia, quer dizer, isso nem era preciso ela me dizer, pois o que eu mais fazia era sonhar com ela. Mas questionei-me sobre se realmente era esse tipo de sonho. Percebi que os sonhos que ela falou podiam ser outros. Tais como ideais para meu futuro, o que eu realmente queria que se tornasse realidade. Claro que eu queria que ela se tornasse real, mas havia outras coisas.

Pra falar a verdade, eu nunca tinha pensado a respeito do meu futuro, pois achava que o que importava era apenas curtir a vida, fazendo as coisas sem arrependimento. É que quando se é jovem, se acha que tudo pode ser perdoado e não causar mágoas e ressentimentos. Demorei um bom tempo para perceber que as coisas não funcionam da forma como queremos. Claro que é importante ter sonhos, mas não podemos transforma-los em fantasia.
Pra ser exato, demorei dois anos pra realmente idealizar meus verdadeiros sonhos. Fiz várias hipóteses, e a maioria não fazia sentido. Consegui sonhar de verdade conjugando os trÊs verbos que ela havia me dito. Selecionei meus sonhos com a ajuda do verbo acreditar. Foi então que percebi o que realmente queria.
Aos 16 anos muita coisa aconteceu, desde a primeira vez que eu vi aqueles olhos. Analisava a vida dos meus amigos, e percebia o modo em que eles se prendiam em coisas fúteis. Comecei a acha-los repugnantes e fui me afastando. Muitos me chamavam de esnobe e arrogante.

Basicamente a vida social tinha virado um lixo. Eu não conseguia sentir sinceridade nas pessoas, e cada vez mais o tempo passava, e as pessoas em que eu podia confiar iam diminuindo.
Tinha medo de falar sobre a 'mulher do olhar verdadeiro', achava que iriam me recriminar, me chamar de louco.
Minha mãe continuava me achando estranho e me levava ao psiquiatra. Ela achava que estava entrando em depressão, até porque desde que meus pais se separaram não havia visto meu pai. Pra falar a verdade, não sentia falta dele, sentia mais falta de alguém que tivesse um olhar verdadeiro e acolhedor, igual ao da Clarisse. Ah, como não gostava de pensar apenas 'ela', resolvi chamá-la assim.

Quando ia ao psiquiatra, eu mentia, tinha medo de dizer a verdade a ele, tinha medo que internasse num hospício.
Estava desesperado, andava atormentado, me sentia numa jaula, com os olhos fechados. Sem nenhum sentido para vida, não conseguia acreditar nos meus sonhos, como eu iria lutar por eles. Eu não conseguia pensar em mais nada, meu único sonho era que Clarisse fosse real.

Ficava em casa e apenas dormia, fui ficando doente e fiquei totalmente deprimido. Fui internado numa clínica psiquiátrica.
Aos meus 16 anos, eu estava no pior lugar do mundo, quando cheguei lá, não sabia o que fazer. Eu me via tomando remédios, e me sentia dopado. Passou duas semanas e eu não precisei mais de remédios. Antes meu pai havia ido me visitar, não me lembro o que ele disse, mas senti que estava triste por eu estar lá. Lembro apenas dos outros três meses.

Eu contei tudo o que se passava em minha cabeça a um psicólogo que também estava internado lá. Foi a pessoa que mais me ajudou a me recuperar e sair de lá.
Ele disse que eu precisava expressar o que eu sentia de alguma forma, e o melhor meio era a arte. Comecei a pintar meus sonhos, estava menos tenso com tudo aquilo, e até estava gostando de lá.
Depois que comecei a me sentir melhor, voltei a sonhar com ela e num desses sonhos ela disse:
- Sonhe e acredite no real. Eu sou o real e vou te ajudar. Mas você vai precisar acreditar em você e lutar por todos.
Na semana seguinte dei alta e pensei muito sobre aquilo. Já sabia que não estava sozinho e iria conseguir vencer.




O resto da história, acho que, todos ainda vão saber...